ARRASTA-PÉ DOS INFERNOS

Como já disse anteriormente, eu escrevo aqui para eu não esquecer e não perder, pois tenho certeza que se eu escrevesse em algum caderno algo aconteceria com ele. Se você está aqui lendo isso, eu agradeço de verdade, e espero que não se sinta ofendido ou enojado com as descrições explícitas que farei daqui pra frente. Meu objetivo é mostrar a verdade nua e crua dos lugares por onde ando. Situações que, caso você obtenha êxito na projeção, poderá acontecer. 
Uma das maiores ilusões que uma pessoa pode ter é achar que, ao sair do corpo, irá para alguma colônia tipo Nosso Lar, um outro planeta cheio de seres benignos e evoluídos. Agora farei o seguinte questionamento: no lugar onde você mora, todas as pessoas do seu bairro são educadas, boas e altruístas?
Presumo que a resposta seja: NÃO!
Vamos ao segundo questionamento: você é uma pessoa boa, evoluída, altruísta, equilibrada, que faz tudo certo?
Com certeza a resposta é NÃO!
Então porque raios você acha que, ao sair do corpo, conseguirá atingir os mais altos padrões espirituais?
Se tem uma coisa que eu percebi nessas minhas saídas involuntárias é que, nos unimos e nos aproximamos daquilo que vibramos. 
Eu sou uma pessoa egoísta, maledizente, nervosa, vingativa, rancorosa e muito desequilibrada emocionalmente. Por isso tenho VÁRIAS experiências em lugares que eu acredito que seja o umbral. Eu estou trabalhando para melhorar. Durante o dia, se eu me deparo com alguma situação diferente, já me vêm piadinha infame na cabeça, porém eu expulso esse pensamento e não deixo que ele crie raízes. Se eu me estresso com alguma coisa, eu tento não xingar. (EU TENTO, se eu consigo... Aí já é outra história).
Após essa breve introdução, quero dividir uma das mais fortes experiências que tive fora do corpo. Foi pesada, sinistra e totalmente involuntária. 
Uma das coisas que mais acontecem é, em meio ao sonho, eu "acordar" dentro do sonho. Já acordei em vários lugares diferentes, tanto bons quanto ruins. Hoje contarei um dos lugares ruins.
Abri meus olhos e me deparei com uma estrada de chão,  olhei em volta e pude perceber pasto dos dois lados, delimitados por cerquinhas de madeira e arame. Estava tudo escuro, somente uma linha de postes para iluminar, uns bens distantes dos outros. É o típico cenário de sítio, de interior. Eu fiquei em alerta na hora, pois já havia estado em lugares semelhantes a esse no astral e, acredite em mim, a experiência não foi boa. Olhei para trás, para ver se eu seria abordada por alguém. Graças a Deus não havia ninguém ali. Segui a estrada. Após andar alguns metros, cheguei ao fim da estrada. Havia como se fosse um grande terreiro. Havia um grupo de casinhas que cercavam esse terreiro, como se fosse um pequeno centro comercial, bem simples. Pude ver que, estacionado na lateral desse terreiro tinha um ônibus grande, desses que as bandas costumam usar para viajar. Tudo era iluminado por linhas de lâmpadas vermelhas penduradas em fios. 
Agora é que o negócio começa a ficar feio. Prepare o estômago. Não diga que eu não avisei.
Até então, eu não estava lúcida totalmente. Eu estava perdida. Pude observar que além de mim haviam três pessoas nesse terreiro:um homem e duas mulheres. Os três estavam dançando um forrózão nervoso. Eu sou do Sul e nunca havia visto ou escutado um forró ao vivo. Eu escutei um tambor batendo ritmado bem forte, a sanfona bem rápida, o cantor cantando abafado e o triângulo sendo tocado na velocidade da luz. Eu olhei para os lados mas não havia banda, apenas o som ecoava forte no ar. A medida que eles dançavam, o movimento rápido e enérgico dos pés deles, fazia a poeira levantar. O homem começou a dançar e dar mais atenção para uma das mulheres, elas começaram a sair no tapa. Então uma empurrou a outra. Esta tropeçou no degrau de entrada de um dos comércios, saiu "catando cavaco", se apoiou na porta que era de um banheiro público, caiu lá dentro em cima da privada. A louça da privada quebrou e perfurou a mulher na barriga, fazendo com que suas vísceras se espalhassem pelo chão. Eu corri desesperada atrás da mulher para ajudá-la. Eu comecei a gritar: ALGUÉM CHAMA O SAMU!!! PELO AMOR DE DEUS! AJUDAAAAA!!! Mas ninguém deu atenção. Foi aí que eu despertei, pois a mulher levantou-se do chão, juntou as vísceras todas e enfiou tudo dentro da barriga de novo. Ela saiu como se nada tivesse acontecido. Voltou para perto do homem e da outra mulher que pareciam esperar por ela. Eles começaram a dançar tudo de novo. Fizeram o mesmo circuito de dança que haviam feito anteriormente. Aí a briga começou novamente, no mesmo ponto. A mulher caiu no banheiro, rasgou a barriga, juntou as tripas e saiu dançar. Era um loop maldito. Vi ela juntar as tripas mais umas três vezes. 
A essa altura do campeonato eu já estava lúcida. Queria sair dali pra não ver aquilo de novo, pois por mais que eu tentasse tirar aquela mulher daquela situação, ela não me ouvia. Então o cenário mudou, foi como se eu entrasse em outra dimensão. Me vi em uma casa muito ampla e bonita, com um jardim no estilo oriental. Pude perceber que era exatamente a mesma localização que eu estava, mas em outra dimensão. Me lembro bem que as paredes dessa casa eram verdes, não havia móveis,  apenas plantas penduradas. O chão era de madeira bem escura e brilhosa. Tinha cheiro de incenso. Então vi uma mulher molhando as plantas. Ela tinha o cabelo preto, cortado pelos ombros e bem liso. Usava uma roupa bem diferente, tipo daqueles filmes de luta da China de antigamente. Só que ela usava a roupa que os homens que lutavam nos filmes usam. Eu estava assustada, tinha acabado de ver uma pessoas juntar as vísceras na minha frente e sair dançando. Ela se aproximou de mim com toda a calma do mundo e disse: "Você tentou ajudar a pessoa errada. Volte lá e ajude a pessoa certa, pois ela está precisando." Não deu tempo nem de eu dizer "Não me mande de volta pelo amor de Deus". O cenário bonito foi se desmanchando, dando lugar ao arrasta-pé dos infernos novamente. Os três estavam lá,  fazendo a dança deles. Não quis nem olhar. Então eu senti que deveria ir em direção ao ônibus da banda. Atrás dele havia um prédio muito grande que eu não havia reparado antes, muito parecido com o da Santa Casa de Curitiba. Um prédio antigo. Era ali que eu deveria ir. 
Não sei como eu entrei no prédio, nem como havia parado dentro do necrotério. Estava de frente para uma maca metálica, com o corpo de um rapaz em cima. Ele tinha marcas de violência na cabeça. Me veio a informação de que ele morava em um prédio pequeno, com poucos moradores. Ele era o síndico do lugar e foi tentar apartar uma briga de casal. O homem então se sentiu afrontado, pegou um martelo e deu com a parte de trás no rosto do rapaz várias vezes. Isso explicava o porquê daquelas marcas horríveis e da falta de um dos olhos. Eu me aproximei da maca e constatei que o espírito do rapaz estava dentro do corpo, imóvel. Eu estava ali para convencê-lo a deixar o corpo. Segue o diálogo mais ou menos que eu tive com ele:
Bruna:"Opa. Belezinha? O que você está fazendo aí?"
Rapaz: " Eu acho que eu morri. Tô esperando Jesus mandar um anjo pra me buscar."
Bruna: "Você realmente morreu. Eu gostaria que você saísse daí. Você não precisa mais ficar dentro do seu corpo. Seu corpo morreu, mas a vida continua."
Rapaz: "Só quando o anjo vier. Você é um anjo?"
Bruna: " Eu não sou anjo. Mas deixa esse negócio de anjo pra lá. Vem comigo, vamos dar umas voltas por aí. Vai ser divertido. Dá pra voar, pra visitar vários lugares sem medo. Venha."
Rapaz: "Vou não. Se Jesus mandar o anjo e eu não estiver aqui, eu não vou pro céu."

E assim termina nosso diálogo sem eu conseguir convencê-lo a sair dali. Ele foi irredutível. Eu fico pensando se eu deveria ter mentido que eu era o tal do anjo que ele estava esperando. Mas eu não consegui mentir pra ele. Espero que ele tenha sido ajudado. 
Depois dessa conversa de anjo, eu não me lembro de mais nada. Acordei e fiquei pensando no coitado do moço. Até hoje penso nisso. 
Vou ficando por aqui, pois esse texto já ficou longo demais. Até a próxima. 

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